Você realmente se preocupa com o futuro?

Você realmente se preocupa com o futuro?

Autor: Mara Luquet

Nos últimos dois anos, constatei um forte aumento no número de pessoas preocupadas com a aposentadoria. São pessoas que já passaram dos 35 anos – a maioria na faixa dos 45 anos – atentas a várias questões que vão desde a regularização da situação com a previdência oficial (INSS) até a escolha do plano privado mais adequado a seu caso. Uma gama de preocupações que perpassam a escolha do plano mais rentável, onde investir, o quanto contribuir.

Sinto, contudo, a ausência de uma preocupação que pode colocar a perder todo o esforço despendido em anos de economias para a aposentadoria.

O fato é que pensar em aposentadoria é muito mais do que juntar dinheiro. Uma estratégia e aposentadoria para ter sucesso deve ter um acompanhamento regular, ainda que estejamos falando de investimento de longo prazo. Na verdade, justamente por isso.

Deve-se evitar a armadilha, criada pelo cérebro, de que investimentos de longo prazo não carecem do olhar atento do dia a dia. Portanto, pensar no longo prazo não significa descuidar de sua carteira hoje e só revisitá-la às vésperas da aposentadoria.

Por outro lado, não quero dizer que você deva ficar “pulando” de um investimento para outro a cada solavanco do mercado. O que quero frisar é que você deve sempre estar atento à qualidade dos ativos que compõem sua carteira, quem a está gerindo e como os ativos são contabilizados. Tudo isto para evitar surpresas desagradáveis no futuro.

São pontos importantes que, para minha surpresa, muitos investidores relegam a um segundo plano ou, simplesmente, ignoram. As pessoas parecem estar mais interessadas em saber que aplicação está em alta no momento imediato a acompanhar com olhar atento seus investimentos.

Mas como esta conversa é com você que é ou tem a possibilidade de ser participante de um fundo de pensão, vamos trazer para o mundo real essas considerações.

Você saberia me dizer em que modalidade seu fundo se enquadra, ou seja, se se trata de um fundo do tipo Benefício Definido (BD) ou Contribuição Definida (CD)?

Benefício Definido? OK. Então, saiba que tem em mãos um produto que está diminuindo no Brasil. Segundo levantamento da empresa de consultoria atuarial Towers Watson, publicado na edição de julho deste ano da revista The Economist, os planos de Benefício Definido representam hoje 42% dos planos de previdência nos EUA. Na Austrália, eles são apenas 16%.

Há, portanto, uma tendência ao encolhimento do número de planos de Benefício Definido e ao consequente crescimento do número de planos de Contribuição Definida.

Pois bem, essa migração de modelos de planos de previdência se deve, sobretudo, ao forte aumento da expectativa de vida. Viver muito custa caro. Enquanto a longevidade dos participantes dos planos de Benefício Definido sobrecarrega os seus custos, os planos de Contribuição Definida não sentem este mesmo efeito. Isto porque o mecanismo de funcionamento dos planos de Contribuição Definida transfere o risco da longevidade para o participante.

O risco também existe no universo do plano do tipo Benefício Definido. Engana-se o participante ao crer que não corre risco algum ou ao acreditar na sagrada manutenção do valor real de seu benefício, independentemente do comportamento dos mercados ou da habilidade do gestor. Não é bem assim. Tudo sairá como o combinado se, ao longo desses muitos anos de acumulação do patrimônio, a solvência do fundo estiver preservada.

Eis, portanto, o dever de se acompanhar de perto o desempenho do seu fundo. E, para isto, deve-se ter sempre em mira o parâmetro mais sensível, a chamada Razão de Solvência. A Razão de Solvência é a relação entre o valor total do ativo e do passivo do fundo de pensão. É ela que pontua a saúde financeira do fundo, ou seja, indica se os ativos são suficientes para fazer frente aos passivos. O ativo é o conjunto de investimentos contabilizados na carteira, enquanto que o passivo é constituído pelas obrigações atuais e futuras do fundo. Os principais itens do passivo são os benefícios concedidos (que já estão sendo pagos) e os a conceder (programados para o futuro), trazidos a valor presente.

A Razão de Solvência é determinada pelo quociente entre ativo e passivo do fundo. Quando o quociente é maior que 1, significa que a situação financeira do fundo é confortável. Caso contrário, um sinal de alerta deve se acender. Para alguns especialistas, qualquer valor abaixo de 0,75 é considerado altamente preocupante. Além da Razão de Solvência, há mais dois itens de extrema importância a serem observados com atenção: a qualidade dos ativos e o preço pelo qual eles estão contabilizados. Observe que os ativos podem estar contabilizados pelo valor real de mercado, ou seja, o valor que seria efetivamente obtido numa eventual venda, ou podem estar marcados na curva (mantidos até o vencimento). Neste caso, específico para títulos de renda fixa, o gestor contabiliza na carteira os juros pagos periodicamente. Para um plano de Benefício Definido com fluxo de pagamentos precisos não há problema de se adotar esta forma deprecificação desde que se case ativo e passivo. O problema ocorre quando as precificações de ativo e passivo estão descasadas.

Ou seja, se o gestor precisar vender algum título antes do vencimento e o preço no mercado não corresponder ao que está contabilizado na carteira, ele pode ter uma surpresa. Se o momento não for favorável, poderá apurar bem menos do que esperava e aí realizar um prejuízo e não conseguir fazer face as suas obrigações. Daí a importância de o gestor classificar quais títulos irá carregar até o vencimento e, portanto, marcar pela curva, e quais poderão ser vendidos no curto prazo e, neste caso, seu valor precisará estar contabilizado pelo preço de mercado. Esta classificação deverá espelhar o fluxo de pagamentos que ele terá que fazer para cumprir suas obrigações, casando então seus investimentos com os desembolsos.

Em particular, os preços mais difíceis de se determinar são os de imóveis e de participações em empresas cujas ações não são negociadas em bolsa (private equity). É difícil precisar o quanto o mercado está disposto a pagar por um imóvel no momento em que há premência de vendê-lo. Da mesma forma, difícil é avaliar empresas cujas ações não são negociadas em bolsa pela falta de parâmetros comparativos de preços.

Esses ativos também estão mais sujeitos ao risco de liquidez, que é a dificuldade de vendê-los na pressa de apurar recursos para cumprir obrigações. Não é fácil vender um imóvel da noite para o dia, por exemplo. Por estas razões, você deve ter atenção redobrada no que diz respeito à precificação de ativos desta ordem.

Já quanto a títulos de renda fixa, observe as condições de emissão para certificar-se da qualidade desses papéis. Foque sempre no emissor do título para ter segurança de que ele será honrado no vencimento. Além disso, fique atento ao prazo. Os títulos com prazos mais longos garantem maiores retornos, mas, por outro lado, também apresentam riscos maiores.

Você já percebeu a importância da correta precificação dos ativos de uma carteira?

Portanto, fique atento. Pior que estar em um fundo com forte oscilação negativa, pela perda do valor de alguns de seus ativos, é constatar que o gestor não registrou precisamente o resultado negativo por meio da precificação incorreta de ativos. Ou seja, registrou por um valor maior o investimento realizado pelo fundo. Essa falta de transparência só fará com que você descubra o prejuízo mais tarde, quando não haverá mais tempo para repor as perdas.

Repare que isto é verdade tanto para fundos de Beneficio Definido quanto para de Contribuição Definida. O mundo da precificação dos ativos, ou seja, de registrar os investimentos pelo preço correto, tem que estar no seu radar, tanto para evitar prejuízos futuros como para aproveitar oportunidades.

É claro que este tema não se esgota aqui. Este é um assunto com muitas nuances que, uma vez tratadas, vão lhe ajudar a tornar a tarefa de acompanhamento periódico de seus investimentos cada vez menos árdua e, por que não dizer, prazerosa.