O sonho de Apoema: Um olhar sobre o crescimento salarial

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O sonho de Apoema: Um olhar sobre o crescimento salarial

Por Felinto Sernache • Luiz Roberto C. Gouvêa

Apoema, que em tupi significa “aquele que vê mais longe”, ao planejar sua aposentadoria, pretendia economizar uma parcela mensal de sua remuneração para formar o montante de 36 vezes o seu salário mensal após 30 anos de poupança. De forma singela imaginou que bastaria dividir o valor desejado, 36 salários, pelo número de meses de contribuição, 360 meses, para obter o valor do percentual (10%) que, aplicado ao seu salário mensal, o levaria a atingir seu objetivo de investimento.

Ao considerar que seus recursos não ficariam guardados em um cofre, mas administrados em investimento de renda fixa que lhe asseguraria a rentabilidade de 0,3% ao mês, refez seus cálculos e descobriu que, graças à rentabilidade esperada de tal aplicação, seria suficiente economizar 5,57% de seu salário para alcançar a meta de um pecúlio final de 36 salários.

Mas o que ocorreria se o salário aumentasse ao longo do período de poupança? Ele percebeu que a aplicação mensal do percentual de 5,57% geraria um montante bem aquém do múltiplo de 36 vezes o salário final. Por exemplo, se seu salário se elevasse à razão de 3% ao ano, Apoema teria acumulado, após 30 anos, aproximadamente 21,7 vezes o seu salário final, ou seja, 60% de seu objetivo.

Assim Apoema concluiu que teria que assumir uma premissa de crescimento salarial para evitar tamanha defasagem na poupança de sua aposentadoria. Recalculou a contribuição necessária na suposição do aumento salarial de 3% ao ano e chegou ao valor de 9,22% de seu salário mensal.

Apoema então aprendeu que pequenos desvios em relação a suas premissas, seja na evolução do seu salário, seja na taxa de juros ao longo de sua jornada, poderiam resultar na frustração de seu sonho de poupança! Se o crescimento salarial for mais acelerado do que o previsto, sua poupança terá uma deficiência em relação à meta por ele estabelecida. Por exemplo, se o salário evoluir à taxa de 4% ao ano, o valor de sua poupança final será de 31 vezes o salário final, ou seja, cinco salários abaixo do objetivo.

No jargão atuarial, o valor presente dessa deficiência é denominado déficit técnico. Similares são os desafios de um Fundo de Pensão ao fixar as premissas de crescimento salarial na busca da solvência de seu plano de benefícios. No caso do plano de poupança de Apoema, vimos que um desvio de 1% em relação à premissa pode importar em uma deficiência de aproximadamente 14% dos recursos necessários para o sucesso de seu investimento.

E em um plano de benefícios, a sensibilidade das provisões técnicas em relação ao crescimento salarial é também   significativa, conforme demonstramos, a seguir, no exemplo de um plano hipotético:

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Nos casos de planos em que a contribuição normal é limitada no Regulamento, as insuficiências podem ser cobertas através de contribuições extraordinárias de caráter temporário. Vale também ressaltar que a tabela abaixo é meramente ilustrativa, pois o impacto do crescimento salarial sobre o custeio do plano pode variar com a metodologia de cálculo, as características do plano de benefício e o perfil da população avaliada.

Na fixação das premissas de aumento salarial, deve-se inicialmente analisar a estrutura salarial da patrocinadora e identificar no regulamento do plano as verbas remuneratórias integrantes da base de cálculo da contribuição e do benefício. É possível que cada componente da remuneração apresente padrão distinto de evolução temporal. Por exemplo, os anuênios costumam progredir aritmeticamente, ao passo que outras verbas podem apresentar um progresso distinto.

Uma das formas usadas para a escolha dessa premissa se baseia na identificação da curva de senioridade dos salários, em que se traça o comportamento do salário médio dos participantes ativos em cada idade. Daí identifica-se como os salários em média evoluem desde as idades iniciais até as idades finais da carreira, podendo-se ainda verificar a curva teórica que melhor se ajuste à curva de senioridade.

Outros fatores devem ser considerados na fixação da premissa de aumento salarial:

• Há na patrocinadora alguma informação que possa ajudar a validar ou recalibrar a premissa?
• Há expectativa de aumentos de produtividade que se apliquem periodicamente ao salário e que possam deformar ou deslocar
a curva de senioridade identificada?

O processo de seleção das premissas adotadas é tão relevante que, na avaliação atuarial de um plano de benefícios, as normas regulatórias impõem que a patrocinadora se manifeste sobre as hipóteses econômicas e financeiras que guardem relação com a sua atividade.

Caberá ao atuário, diante das evidências do passado, das experiências e das expectativas futuras, assessorar o processo de escolha das premissas e revisitar continuamente o elenco das hipóteses estabelecidas em favor da saúde financeira do plano e consecução dos objetivos da entidade de previdência.

Tanto o sonho de Apoema quanto a desejável solvência do plano de benefícios podem perfeitamente ser concretizados por meio do constante monitoramento das experiências, da identificação das variáveis que interferem na suficiência dos programas de investimento e custeio e da adoção imediata de ajustes tecnicamente recomendados para o sucesso de sua finalidade.

VOCÊ SABIA?
O Plano Básico de Benefícios (PBB), administrado pela FAPES, é um plano de benefício definido, que tem caráter coletivo e mutualista após a adesão do participante. Em planos com estas características, o atuário responsável deverá utilizar uma premissa de crescimento salarial para estimar o valor de benefício de aposentadoria e, com isso, verificar a adequação do custeio.

Para a determinação do crescimento real de salário no PBB, é calculada a média da evolução de carreira individual projetada até a aposentadoria, considerando o grupamento e o nível ocupados por cada participante, bem como as especificidades do plano de cargos e salários de cada patrocinadora.

Tais cálculos são feitos anualmente, de modo que a citada premissa sempre esteja alinhada com a realidade de toda a massa participante empregada do patrocinador, que é observada na data do cálculo da Avaliação Atuarial Anual.

Autoria: Gerência de Gestão do Passivo Atuarial (GESPA) da FAPES