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Por Aquiles Mosca
 
Na teoria de investimentos, sempre somos lembrados de que o tempo possui um papel fundamental na gestão de recursos. O horizonte ou prazo de investimento é o ponto de partida para definir onde eles devem ser alocados. Uma carteira de aplicações que precisa correr risco na busca por um retorno maior deve ter um horizonte amplo para acomodar as flutuações inerentes a aplicações mais arriscadas e permitir que o potencial de alta desses ativos possa se materializar. Ativos de risco, como bolsa de valores, possuem alta volatilidade no curto prazo, porém, podem tornar-se limitados e positivos em períodos mais amplos. Essa é a tão falada tendência de alta no longo prazo.
 
Tal conceito é conhecido na teoria financeira como diversificação temporal dos investimentos, originalmente definido por Peter Bernstein, da Universidade de Harvard. Não devemos perder de vista suas implicações na hora de investir. Contudo, as práticas do mercado financeiro brasileiro teimam em não espelhar esse conceito.
 
Uma série de (maus) hábitos impede que a valiosa relação entre tempo e performance seja respeitada. O investidor brasileiro sofre de uma impaciência, cujas consequências são prejudiciais à materialização dos principais benefícios de uma carteira que engloba aplicações de risco.
 
Primeiro, costuma-se avaliar investimentos mensalmente. Esse horizonte, extremamente curto, que na melhor das hipóteses possui 21 dias úteis, é prejudicial à boa gestão. Trata-se de um intervalo muito breve que engloba alta volatilidade, sendo insuficiente para viabilizar os benefícios da diversificação temporal mencionada acima. O reflexo desse comportamento pode ser visto no primeiro dia útil de cada mês, quando são publicados rankings que classificam modalidades de investimentos em ordem decrescente de rentabilidade. Num mês vemos a bolsa como a grande vencedora, no outro o euro ou o ouro e assim por diante. É claro que, em alguns meses, a bolsa tem performance inferior à renda fixa e essa, por vezes, pode ter variação inferior à inflação.
 
No entanto, tais movimentos mensais são desprezíveis para aplicações que têm horizonte mais amplo e isso se torna mais importante quanto maior o prazo. A preocupação com o desempenho mensal gera reações prejudiciais à carteira, como por exemplo, a noção de que o portfólio precisa ser realocado a cada mês na tentativa de antecipar o melhor ativo para estar
posicionado nos próximos 21 dias úteis. Essa percepção é errada e danosa à gestão, gerando uma ansiedade que em nada contribui para o crescimento sustentado do patrimônio. Além disso, a base de comparação usada para julgar o sucesso ou fracasso dos investimentos, ou benchmark, é o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), um índice nominal que traz pouca informação sobre o que realmente interessa ao investidor: a evolução de seu poder de compra, isto é, a rentabilidade real da carteira. Um índice de preços ao consumidor, como o IPCA ou INPC, mais um retorno incremental, seria um balizador mais útil. O investidor bem-informado não se deve deixar influenciar por esse debate mensal estéril.
 
Somente quem está liquidando investimentos em determinado dia deve se preocupar com os movimentos de curto prazo do mercado. Seja qual for a alocação, o mercado terá certos momentos desfavoráveis, ao menos em parte da carteira. Daí a necessidade de um horizonte de tempo que possa acomodar as flutuações e permitir a recuperação de eventuais perdas. O
portfólio que corre risco deve ser desenhado com o princípio de que suas posições não serão liquidadas em momentos de baixa.
 
Para proteger-se dessa armadilha, atenhase à política de investimentos definida originalmente. Se uma análise de objetivos, perfil de risco e alocação resultou em um portfólio composto por 10% do patrimônio em renda variável e 90% em renda fixa, seja disciplinado e paciente na gestão de sua carteira. Recomponha a alocação inicial em momentos de alta ou baixa somente para realinhar a política de investimentos e os percentuais alocados em cada ativo originalmente definidos. Permita que o tempo possa refletir suas virtudes no resultado da carteira. Se a preocupação é preservar e crescer o patrimônio consistentemente com o objetivo de conquistar independência financeira, não procure acertar o melhor momento para comprar ou vender determinado ativo, ou mesmo discriminar o ativo “A” com relação ao “B”. Ao buscar isso, o investidor individual assume grande probabilidade de erro. Disciplina e paciência sempre foram, e continuam sendo, virtudes lucrativas.