Crédito: benefícios e limites para utilização

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Crédito: benefícios e limites para utilização

Autor: Reinaldo Domingos

A frase “eu tenho crédito no mercado” é comumente utilizada como uma expressão positiva, refletindo uma imagem de que a pessoa é de confiança. Isso deriva da expressão “crer”, acreditar em algo ou em alguém. Já quando partimos para o aspecto financeiro, a utilização desse termo tem o significado de que há uma garantia a um tomador de obter recursos financeiros para fazer frente a despesas ou investimentos, financiar a compra de bens, entre outras situações semelhantes.

Mas a palavra crédito traz junto com ela uma carga pejorativa muito pesada que, na realidade, não conota a realidade, já que estar endividado não é, necessariamente, uma questão negativa. O que realmente é problemático é o descontrole da retirada de crédito, que pode direcionar as famílias à inadimplência.

Observo que a maior parte da população confunde o significado de obter crédito e de estar endividado. Então, é importante falar um pouco sobre o tema para esclarecer e desmistificar alguns pontos, como o fato de as pessoas acreditarem que investidores não podem solicitar crédito.

Vou até mesmo mais longe: o fato de uma pessoa buscar crédito no mercado não é empecilho nenhum para que ela também seja uma investidora. Muitas vezes, esse é apenas o melhor caminho para que se possa atingir anseios e desejos. Nos dias de hoje, o crédito tem que ser responsável: empréstimos e financiamentos concedidos devem gerar consumo consciente e empregos.

A utilização de crédito, de forma controlada e programada, faz parte da vida. Quando as dívidas são frutos de investimentos – em educação e profissionalização, por exemplo –, elas são perfeitamente coerentes e justificáveis. Afinal, nessas situações, haverá um retorno financeiro em médio ou longo prazo.

Então, afirmo que pessoas que guardam seu dinheiro – seja em uma previdência privada ou comprando ações da bolsa de valores – podem perfeitamente também buscar crédito no mercado. Eis um exemplo: quem tem compras parceladas no cartão obteve crédito, pois o produto ou serviço adquirido agora terá que ser pago nos próximos meses. E por que ela faz isso, mesmo tendo recurso para comprar à vista? Porque, muitas vezes, não há desconto algum para compras pagas de imediato, então, é muito mais interessante deixar o dinheiro rendendo.

Infelizmente, o que acontece em boa parte das vezes é que a população se endivida por falta de planejamento, o que, aí sim, se torna um problema, pois o endividamento não planejado tem grandes chances de se tornar uma inadimplência. Além disso, as pessoas usualmente não guardam dinheiro e não possuem uma reserva financeira para momentos adversos. Então, é muito importante entender essa lógica e buscar a educação financeira, evitando entrar em um efeito bola de neve.

Em geral, a ciranda da inadimplência segue o seguinte compasso: se a prestação da casa ou do carro não está cabendo no orçamento, a pessoa passa a pagar todas as demais despesas no cartão de crédito, imaginando que assim sobrará recursos para pagar suas principais dívidas. Dentro de poucos meses, no entanto, já não conseguirá quitar a fatura do cartão e passará a pagar a parcela mínima, até que entre algum dinheiro extra. E, quando isso não acontece, a saída é recorrer ao cheque especial.

Chega o começo do outro mês e a história se repete, com a intensificação da dívida. O salário recebido é suficiente apenas para cobrir o limite do cheque especial. Entretanto, também surge o débito referente aos juros do período mais a parcela mínima do cartão (que também vem acompanhada de juros). Sem alternativa, deixa-se de pagar a prestação da casa ou do carro. Quando se dá conta, a pessoa está endividada de todos os lados, correndo o risco de ficar inadimplente e sem linhas de crédito. A falta de opções acaba levando à procura de um empréstimo e a situação acaba piorando de maneira progressiva.

Assim, recomendo muito cuidado, independentemente de você ser ou não um investidor. Qualquer um pode obter crédito no mercado e, nesse caso, a primeira coisa a ser feita é um diagnóstico da vida financeira, de modo a saber se, de fato, haverá condições de pagar por esse valor no futuro. Se a resposta for não, tente primeiramente renegociar com o credor, afinal, você quer pagar e ele quer receber. Muitas pessoas, por não terem a orientação adequada, querem pagar suas dívidas a qualquer custo, mas não percebem que, assim, acabam com a situação financeira ainda mais complicada.

O crédito é uma realidade de mercado que, se tratado de forma equivocada e desordenada, leva a um endividamento recorrente e progressivo que pode trazer transtornos incalculáveis para toda a família. Por outro lado, se utilizado corretamente, poderá não só auxiliar nas dificuldades como também se mostrará um excelente apoio para que se atinja os objetivos financeiros idealizados.