Brasileiro não está preparado para decisões de consumo e poupança

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Brasileiro não está preparado para decisões de consumo e poupança

Autor: Reinaldo Domingos

Independentemente de idade ou classe social, dados recentes mostram que a maioria dos brasileiros tem um ponto em comum: o fato de ter dificuldades na administração das finanças pessoais.

Uma pequena amostra dessa realidade é a pesquisa divulgada recentemente pelo SPC Brasil, que mostra que 81% da população não têm praticamente nenhum conhecimento sobre educação financeira. O mais preocupante é que apenas 18% têm controle total do fluxo de receitas e despesas no orçamento pessoal; 71% têm conhecimento parcial; e outros 10% não sabem nada das próprias finanças.

Muito se engana quem pensa que esse problema de falta de educação financeira atinge pessoas de poder aquisitivo mais baixo. Para se ter ideia, dentre os que têm renda acima de R$ 3.141,00, apenas 23% têm conhecimento da própria conta. Isso mostra que ter dinheiro não significa, necessariamente, saber lidar com ele.

O reflexo desse dado recai diretamente sobre os hábitos de consumir e poupar, sendo que 56% dos entrevistados pelo SPC terminam o mês sem economizar um centavo. Isso é reflexo da cultura imediatista da sociedade, já que 36% das pessoas adquirem produtos mesmo não tendo condições de gastar, ainda que eventualmente.

O único ponto que traz um alívio a esse quadro é uma crescente busca por conhecimentos de educação financeira e consumo consciente entre pessoas das mais variadas classes sociais e idades, fato reforçado após a crise mundial de 2008, quando milhões de pessoas, de praticamente todo o mundo, descobriram que não tinham sustentabilidade, ou seja, não conseguiam viver mais do que alguns meses se não recebessem mais seus salários ou ganhos mensais.

Porém, mesmo esse aumento de conscientização é ainda muito superficial, partindo-se de um senso comum de que educação financeira ainda está muito relacionada a números, sem haver objetivos atrelados. Mais do que fazer cálculos ou poupar parte do que se ganha, a educação financeira está ligada diretamente a comportamento, levando em conta os objetivos de caráter pessoal em relação ao consumo e ao ato correto de guardar dinheiro, destinando-o aos sonhos.

Para quebrar o ciclo de gerações de pessoas inadimplentes e construir novas gerações de famílias educadas, saudáveis e sustentáveis financeiramente, é importante ter em mente que sempre deverá existir os sonhos individuais e os coletivos (da família), que deverão ser divididos em três horizontes de tempo: de curto, médio e longo prazos. Também é imprescindível responder a algumas perguntas básicas: Qual é o desejo? Quanto ele custa? Quanto se deve guardar de dinheiro por mês para realizá-lo? Em quanto tempo será possível concretizá-lo?

Com essas respostas, é preciso estabelecer uma estratégia de realização dos sonhos, que podem ser um carro, uma casa, uma aposentadoria sustentável, entre diversos outros. Nesse sentido, a adoção de alguns procedimentos se torna indispensável:
 

• Diagnosticar – pesquisas comprovam que os excessos em cada despesa dentro de uma casa ou empresa são de 20 a 30%. Por isso, é necessário uma estratégia para recuperar essas perdas, reunindo os envolvidos para uma conversa franca e aberta, que inclua as crianças (no caso das famílias) e aborde sonhos e desejos individuais e coletivos. O diagnóstico deverá ser feito por 30 dias, anotando todos os gastos, até os pequenos, como cafezinho e gorjetas. Então, é hora de tentar reduzir os excessos. O processo deve ser repetido todos os anos – sempre no mesmo período ou quando houver uma mudança brusca de ganhos ou gastos –, mas não pode se transformar em uma rotina. Não se deve ficar escravo do dinheiro e muito menos do apontamento de despesas. Adequar-se ao real padrão de vida é o grande desafio de milhões de brasileiros;
 

• Sonhar – após descobrir para aonde está indo cada centavo do dinheiro, é preciso ter clareza de quais são os sonhos, quanto custam, quanto será necessário – e possível – guardar e por quanto tempo. Recomendo que se tenha três sonhos, sendo um de curto (até um ano), um de médio (de um a dez anos) e outro de longo prazo (acima de dez anos). Sonhos sem esses ingredientes podem gerar frustração. Mais do que isso, é importante que se tenha em mente que os sonhos estão relacionados ao ciclo de vida que se vive e em cada um deles é necessário que se estabeleça sonhos diferentes, com orçamentos distintos. Assim, a estratégia para um jovem que acabou de entrar no mercado de trabalho tem que contar com projeções mais longas do que aquela de uma pessoa que está preste a se aposentar;
 

• Orçar – reduzindo as despesas e identificando os sonhos, chega a hora de praticar o passo ‘Orçar’. O que se entende de orçamento financeiro, até os dias de hoje, é Ganho (-) Despesas = Lucro/Prejuízo. Entretanto, é preciso entender que essa forma não tem resolvido a vida das famílias brasileiras. Proponho, então, um novo jeito, que chamo de ‘Orçamento Financeiro DSOP’. O que ele traz de diferente é a inclusão dos sonhos antes das despesas: Ganhos (-) Sonhos (-) Despesas;
 

• Poupar – guardar dinheiro é algo muito simples, desde que passe pelos outros três passos (Diagnosticar, Sonhar e Orçar). Para guardar dinheiro e investir, é preciso ter três elementos: Sonhos + Dinheiro + Tempo. Esses ingredientes fazem toda a diferença. É muito comum pessoas até guardarem dinheiro e, por não terem claros quais são seus objetivos, acabarem gastando esse valor. Por isso, esse é o requisito mais importante para a constituição de uma poupança sólida: ter sonho, saber quanto ele custa, definir a quantia necessária a se guardar por mês e por quanto tempo.